Não dá para sentir falta do que ainda não aconteceu. Podemos não nos dar conta, mas será das coisas mais simples que um dia sentiremos saudades.
 Vou te falar de quando conheci o marido, primeiro arco-íris, da primeira chuva de pedra, da primeira vez que vesti roupa de anjo e fui toda feliz com minhas asas branquinhas nas costas, acompanhar uma procissão. 
Ainda posso te dizer que nunca esqueci da minha primeira professora, nem de quando fui de castigo para a diretoria, do primeiro zero e também do primeiro dez que tirei em uma prova.

Ah! E quando fui a um confessionário, disseram que a gente tinha que confessar os pecados, bem que eu fui lá, me ajoelhei, mas na verdade eu nem sabia o que era pecar então simplesmente fiquei muda 
este deve ter sido meu primeiro pecado e por isso meu castigo foi rezar a ave-maria. Ah! As igrejas nesse tempo ficavam sempre de portas abertas.
 E ouvir histórias de assombração.nossa que medo!

Tenho que te contar da emoção que senti ao entrar em um trem e partir para o que me explicaram , que era férias, eu bobinha pensei na época, que esse era o nome de um lugar, só depois fiquei sabendo que, na verdade férias significava, um tempo em que se dava um tempo, coisa complicada para criança entender.
E a ansiedade ,de no grupo escolar conseguir passar do primeiro ano para o segundo e só assim então, ter o direito de escrever de caneta e abandonar o lápis.Mas foi assim que descobri como era quase impossível corrigir um erro. 
Das lembranças boas que tenho na vida, como diz Roberto em uma de suas tantas canções, há especialmente a que me faz sentir ainda o deslumbramento que tive ao conhecer um circo.

Como fiquei extasiada ao ver os equilibristas na corda bamba ,as piruetas dos trapezistas e do brilho das lantejoulas das suas roupas coloridas. Foi desse dia em diante que fiquei sonhando em abandonar tudo o que eu tinha e o que era e correr mundo para viver eternamente nesta magia, onde tudo era só beleza e ainda me sentir totalmente protegida, mesmo que os saltos fossem os mais ousados e mais loucos ,porque sempre teria lá embaixo a rede de proteção para me salvar.

O chato é que cresci, virei adulta?Acho que não, porque em mim ainda vive aquela garotinha, que apesar dos pesares aprendeu a afastar fantasmas, entender mais as entrelinhas do que o escrito o que ainda faz de mim a mesma, que silencia ao falar dos pecados mas que confessa mesmo, sentir muita saudade de tudo que vivi, e principalmente de todos aqueles com que convivi e que num passeio parecido com aquele de trem, partiram me deixando sem explicação do “pra onde” e do “por que”.

Do deslumbramento que senti no circo, naquele dia ,hoje ficou apenas a constatação que nem tudo é brilho de lantejoulas.

Talvez pelas voltas tantas que o mundo e minha cabeça deram, eu de colorido só saiba, que o ruído branco é presença e que o ruído negro é saudades…

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