Eu fui professora por um bom período da vida, depois tive outras profissões mas isto é história para ser contada em outra hora qualquer.
Trabalhei com pessoas ótimas, profissionais talentosas que gostei de ter conhecido.
Mas entre tantas colegas no trabalho tive uma grande amiga.
Vou chamá-la de Maria para preservar e respeitar sua memória.
Ela tinha feito apenas alguns anos de escola o máximo para que soubesse ler e escrever seu nome e trabalhava como servente em uma das escolas que eu lecionava.
Tinha 5 filhos e entre eles uma mais velha de 12 anos que cuidava dos menores enquanto ela estava trabalhando.
O marido bateu em retirada deixando fome e desespero na saída.
Todos os dias quando eu chegava ela estava no portão e me saudava com um sorriso e me dizia :
– Alô amiga tenha um bom dia.
Nos poucos minutos antes das aulas começarem , ela me falava das dificuldades, das pequenas alegrias que tinha com os filhos e do cansaço que nem precisava contar, eu via no seu rosto.
Era bonita a Maria, embora com o rosto e cabelos mal tratados porém, resplandecia nela a beleza das pessoas de bem.
Muitas das minhas amigas a olhavam com um certo preconceito pois sabiam que ela durante à noite e pela madrugada tinha outro trabalho.
Ao fim das oito horas do seu turno ela ia pra casa ainda fazer o jantar e o almoço do dia seguinte, lavar roupas, passar, limpar a casa e abraçar as crianças .
Muitos a olhavam com desprezo e eu com admiração, pois sabia que ela não tinha tempo de se preocupar com o que podiam pensar dela e sim, em conseguir o máximo de clientes do cabaré onde em troca do corpo, ela trazia o pão de cada dia para que os pequenos crescessem sem tanta privação.
Quando eu fiquei esperando meu filho ela era toda cuidado pra mim, ia na porta da classe perguntar se eu estava com fome se queria água e se estava cansada.
Quase perto de meu filho nascer tirei licença, porque estava com pressão muito descontrolada e não a vi mais.
Todas minhas colegas foram conhecer meu bebê e ela não foi.
Senti falta dos seus cumprimentos mas entendi que não lhe sobrava tempo para isso.
Um bela tarde de outono , com um tempo ameno eu tive que ir à farmácia .
Ao pagar no caixa antes de sair vi que o tempo de repente mudou,começou uma ventania,
o céu escureceu e sai apressada para fugir da chuva que anunciava despencar.
Ao entrar no carro não sei porque, olhei para o outro lado da rua e vi passar muito apressada a Maria, que como eu, estava tentando se proteger do aguaceiro anunciado.
Ela olhou lá de longe me acenou e foi embora.
Eu fiquei chateada pensando que ela por não ter ido me visitar,bem que poderia mesmo apressada, vir me abraçar.
Liguei o carro é contrariada fui pra casa.
Ao chegar depois de um pouco o telefone tocou, era minha colega da escola, ela disse que tinha me telefonado tantas vezes nesse período em que eu não estava,
porque queria me contar o que havia acontecido.
-Rose a Maria teve um infarto fulminante uma hora atrás e nem deu tempo de chamarmos a emergência, morreu nos meus braços.
Eu não me lembro o que falei ou se desliguei, apenas sei que me ajoelhei e pedi que Deus recebesse minha amiga heroína no céu porque ela merecia.
Aprendi com a Maria lições de vida muito mais do que como professora eu lhe ensinei .
E mais uma vez, ela na partida não teve tempo de me dar um alô , simplesmente me ensinou que o inexplicável pode vir em forma de “Adeus”…

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