Estudei no Instituto Feminino de Educação Padre Anchieta, desde o antigo ginasial até o Curso Normal, onde me formei professora.

Anos depois terminei meu curso superior em Pedagogia e Sociologia.

Formada meu primeiro emprego foi na escola municipal Madre Maria Imilda, onde fiquei por vinte anos, até me transferir pra a escola Presidente Epitácio. onde me aposentei.

Em  escolas estaduais deu aulas em diversas como, Diogo de Faria, Jardim Helena, Carlos Gomes, Parigot, Força Aérea, Maximo de Moura Santos, e trabalhei também na Oficina Pedagógica de Såo Miguel Paulista.

Durante esses anos todos, ensinei  em todas as séries iniciais de quinta a oitava, e também no colegial.

Poderia escrever vários textos contando das vivências e experiências adquiridas nesse convívio com colegas de trabalho e tantos alunos, mas vou me deter em alguns fatos que de repente me lembrei agora quando resolvi escrever hoje sobre minha profissão e vocação.

Todo início do ano escolar com a lista de alunos em mão fui até o pátio para fazer a chamada um por um dos que seriam os que iriam formar minha classe.

Chamei todos inclusive um com o nome Ostro, repeti algumas vezes  e ninguém se apresentou, até que vi um garotinho,  que ficou sozinho e lhe perguntei:

– Qual é seu nome ?

– Washington.

Ele falou exatamente assim, acontece que na lista estava escrito  de acordo com o registro de nascimento e lá estava grafado Ostro. Realmente eu percebi aí,  a importância de uma boa professora .Este escrivão com certeza ou foi péssimo aluno ou sua professora não foi das melhores e quem sofreu as consequências, foi esse garotinho.

Eu ficava o dia todo trabalhando e por isso levava marmita para almoçar na hora do recreio, depois sempre pedia a um aluno que a levasse para a cozinha para que fosse jogada a sobra no lixo e que fosse lavada.

Esse aluno um dia me perguntou:

-Professora,  será que a senhora ao invés de jogar a comida que não quer mais,  poderia mandar para minha mãe?

Eu respondi que sim e que no dia seguinte ele trouxesse uma vasilha para isso.

Na próxima aula, ele me entregou uma lata vazia bem limpinha e eu perguntei:

– Quantos porcos sua mãe cria?

-Nenhum.

-Então por que você quer  o resto de comida?

-Para a gente comer professora!

Durante o ano todo,  que esse aluno ficou comigo,  todos os dias eu trazia para a família dele uma  travessa com almoço suficiente só para eles.

Eu conheci várias diretoras, mas jamais deixaria de mencionar uma que me marcou pela competência, carisma, amor ao trabalho e que me ensinou muito em vários aspectos, que foi a dona Cleonice. Profissionais como ela,  infelizmente hoje em dia , é coisa rara.

Colegas no trabalho tive muitas e com cada uma delas aprendi muito, mas poucas foram amigas que tive e que gosto de lembrar.

Maria Helena, de pele escura que ao chegar iluminava a todos com sua voz lindíssima e que com suas musicas fazia o dia se tornar mais feliz.Saudades!

Joana,  que hoje se aposentou e mora em João Pessoa.A Rosinha que tem a felicidade de ter o pai vivo e a mãe com 94 anos cada um.A Nilza casada com o Adjunto, que morreu cedo e a deixou com crianças pequenas para criar.  Ela cumpriu lindamente sua missão e todos são formados e bem nas suas respectivas profissões.

A Sandra que vinha de longe no seu fusquinha e que um dia chegou transtornada na escola. Em uma colisão não teve como frear e sem querer atropelou uma senhora.Enquanto essa pessoa permaneceu internada a gente só  via a Sandra ajoelhar e pedir que ela se recuperasse.Não foi isso que aconteceu.A senhora faleceu e ela vendeu o fusquinha e nunca mais dirigiu.

Minha amiga Nogali falava sempre que o desejo maior dela é que seu filho conseguisse entrar para a academia militar.Fiquei sabendo anos depois que hoje ele é coronel.

A Maria Luiza,minha amiga querida, tinha pela mãe um amor tão grande que me comovia.

A Maria Estela que não gostava nem um pouco de criança e que o que mais queria era ganhar na loteria para se livrar de ter que lidar com elas.Um belo dia, nos contou que achou um pretendente suíço e que iria se casar e mudar para o país dele.Por muitos anos eu recebi seus cartões no natal mostrando as paisagens cobertas de neve que só depois de muito tempo tive a alegria de conhecer.

A Cecília que teve a infância no nordeste e que por lá contraiu a doença de Chagas, não chegou a se aposentar.

A Fátima,  que abandonou tudo e foi para o convento depois de amargar um amor desfeito.

Dos alunos me lembro de muitos e até já tive o prazer de encontrar em algumas ocasiões.

O Fernando que sofria de vitiligo me disseram que virou bandido.

O Augusto foi para os Estados Unidos e se tornou diplomata.

O Luizinho que me tirava do sério acredite virou delegado.

E o houve até aquele garoto que me fez passar por um momento bem tenso.

Ao chegar na rua da escola para mais um dia de trabalho deparo com crianças, professores e uma pequena multidão em polvorosa, no meio dessa confusão o Alexandre esse meu aluno com um revólver em punho.

Ninguém,teve coragem de se aproximar dele para fazer com que ele entregasse a arma.Ele dizia aos berros que ia matar um colega.

Eu não tive outra alternativa, com medo é verdade,  fui me aproximando dele e ele gritando para eu parar onde estava. com uma coragem que nem sei onde achei,  fui indo em frente até me aproximar e ordenar que ele me entregasse a arma. Foram segundos tensos mas enfim ele se acalmou e me entregou e eu o abracei e fomos para dentro do prédio.

Seu pai foi chamado e a diretora depois de muita conversa com ele o fez entender que seria melhor aceitar sua transferência.

Nunca mais soube dele, mas esse fato me fez saber um pouco mais de mim.

Não caberia aqui todas as estórias vividas nesse período de convívio com meus pupilos, mas lembro da Lúcia ,  que tinha uma doença,  que a fazia apesar de estar com oito anos,  aparentar  ser uma senhorinha de 7o.Do   Fernando,  que  tinha em uma mão sete dedos, o Amadeu  que era gago e o Renatinho,  que um dia  me entregou um bilhetinho com um pedido de casamento.Ele tinha apenas 10 anos e escreveu que não se importava por eu ter um 27 anos e umas pedrinhas (palavras dele) queria se casar comigo mesmo assim, realmente não dá para esquecer né?

Sim bons tempos foram esses e essas lembranças quase apagadas me faz recordar de tantas coisas boas, outras nem tantos.

Sou do tempo em que as professoras se vestiam o mais decentemente possível, faziam questão de usar uma meia fina e passava um frio louco quando era inverno porque usar calça comprida para dar aula era impensável.

Os tempos hoje são outros,  vejo professoras  que vão de bermuda e as mais ousadas com decotes que eu não teria jamais coragem de usar.

Naquele tempo o que as professoras falavam para os alunos era lei, os pais nos respeitavam e a gente era vista pelos rapazes como as preferidas para casar, todo pai sonhava em ter uma professora na família.

Vocês que são protagonistas destes tempos atuais devem achar até engraçado. Eu sinceramente acho triste o que vejo .

Agora quando percebo como os alunos de hoje não sabem conversar ,não tem o hábito da leitura,mal entendem o que acontece no mundo, quando poucos fazem as quatro operações aí eu fico estarrecida.

E tenho que concordar com a frase que diz “que a escola de antigamente era feliz e franca “.

Eu ainda acho, que o dia em que resolveram tirar o tablado da sala de aula,  que fazia o professor ficar em um nível acima dos alunos e eles para se dirigir ao mestres,  levantavam o braço para pedir licença e tinham que olhar para cima, aí acabou a hierarquia.Os alunos de hoje nem imaginam o que pode ser isso.

Chamar professora de tia então foi um horror.

Está passando na televisão uma série que se chama “Os dias eram assim ” eu estou assistindo ao ver todas essas mudanças que os dias” são assim” e aí,  eu pergunto como será o “assim”  de amanhã ?

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