Você se lembra de quando conheceu o mar,de quando viu o primeiro arco-íris,a primeira chuva de pedra? Com certeza se lembra do primeiro presente que pediu para o Papai -Noel e ele como bom velhinho lhe atendeu? E do nome da primeira professora,da primeira nota nota baixa e do primeiro dez,você não esqueceu não é? Recorda do primeiro espetáculo de circo?
Eu me lembro bem de como fiquei encantada com os equilibristas e com os saltos dos trapezistas com suas roupas de lantejoulas coloridas.Foi daí desse dia em diante, que eu quis abandonar tudo o que eu tinha e o que era e correr mundo para viver pra sempre nesta magia,onde tudo era só beleza e fantasia e ainda me sentir totalmente protegida mesmo que os saltos fossem os mais ousados e loucos porque eu sabia ,que lá embaixo teria a rede de segurança para me salvar.
Recorda-se da primeira viagem?Foi de ônibus,trem,carro ou avião?
A minha foi de trem.Entrei com minha família ,toda feliz e parti para o que chamaram férias.Eu tão bobinha ,pensei que esse era o nome de onde a gente iria,só depois fiquei sabendo ,que na verdade esse nome, queria dizer “um tempo onde se dava um tempo”,coisa muito complicada para eu entender na época ,mas sem mesmo compreender o significado, fui curtindo cada paisagem,cada estação e adorei quando um vendedor entrou e gritou “olha a coxinha de galinha morta”nem liguei se ela tinha morrido o que eu adorei mesmo foi o sabor dela, que eu nunca tinha experimentado até então.
Quando fui me preparar para a primeira comunhão me avisaram que eu teria que ir ao confessionário e confessar os pecados.
Eu nem sabia o que era pecado,mas fui ,me ajoelhei e quando o padre perguntou no que eu tinha pecado ,simplesmente fiquei muda,este deve ter sido meu primeiro grande pecado porque ele me mandou rezar dez vezes a ave -maria.
Esses dias mexendo na minha caixa de fotos achei uma em que eu estava vestida de anjo e tinha nas costas um par de asas branquinhas,nesse tempo eu não faltava em nenhuma procissão.Deu um aperto no peito ao me lembrar da minha inocência de então.
O que falar ainda das nossas memórias que nos traz de volta a nossa turminha de brincadeiras de rua,das amarelinhas, que pulamos,das histórias de assombração que mesmo com medo gostávamos de ouvir,da primeira vez que fomos a um cinema,das nossas primeiras confidências com a melhor amiga.
Quando eu cursava o primeiro ano do Grupo Escolar(era assim o nome antigamente das escolas) não via a hora de passar para o segundo ano porque era quando seria permitido abandonar o lápis e escrever com caneta.Afinal quando cheguei a usar a caneta tinteiro,percebi como seria quase impossível apagar um erro.E depois de muito gaguejar finalmente aprendi a ler de carreirinha,como disse o Sassa Mutema ,interpretado por Lima Duarte em uma novela, de quando elas começavam as oito horas em ponto.Lembra? Das lembranças que tenho na vida ,como diz Roberto em uma das suas tantas canções, me lembro do dia que me formei e para registrar esse momento especial, fui para o fotógrafo tirar a foto que ainda era em preto e branco pois o filme colorido não tinha chegado por aqui e eles artificialmente coloriam a foto.Fiquei bonitinha que sê vendo!
Pronto ,acabei de deixar você saber a minha idade,pode rir sou do tempo em que o capeta ainda era capitão de polícia.Ou ainda do tempo em que se amarrava cachorro com lingüiça,ou de quando a tampa do guaraná era de rolha.
O chato é que cresci. Virei adulta? Acho que não, porque em mim, ainda vive aquela garotinha que apesar dos pesares aprendeu a afastar fantasmas,a entender mais as entrelinhas do que o escrito e que nunca teve a sorte de encontrar uma rede de proteção.Tenho tentado de verdade, corrigir alguns erros ,mas nem por isso deixei de fazer tudo do meu jeito,o que me fez ser a mesma , que silencia a falar dos pecados .Hoje só confesso mesmo, sentir muita falta do que vivi e principalmente daqueles com quem convivi e que num passeio ,parecido com aquele primeiro de trem que fiz,foram desembarcando nas estacões da vida e partiram me deixando sem entender o “pra onde” e “o porquê “.
Das cores que me deslumbraram no arco-íris e na roupa dos trapezistas,ficou a certeza que nem tudo é brilho de lantejoulas. Talvez pelas voltas tantas que o mundo e minha cabeça deram eu de colorido só saiba que o ruído branco é presença e que o ruído preto é saudades…

Rose Kovac

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