A doçura perdida

Lembram da frase que perguntava : qual é o doce mais doce, do que o doce da batata doce ? Nunca ouvi ninguém responder.
Meu avó gostava de perguntar para a criançada que se juntava a ele para brincar de perguntas e respostas : Qual é a cor branca do cavalo branco do Napoleão? Perguntava.
Todos respondiam : Branco e a gente morria de rir de quem errava.
Neste tempo as tardes eram amenas, o calor que tinha feito durante todo dia, recebia uma brisa fresca e era quando a molecada, já cansada de tantas estripulias e brincadeiras, se aquietava e sentava na calçada, esperando as mães chamarem para tomar banho.
Eu passava todas as minhas férias na casa dos meus avós maternos, na cidade de Mirassol e adorava perceber as diferenças que havia na casa deles, em relação a que eu vivia com meus pais na capital paulista.
Foi lá que eu conheci a lamparina que substituia a luz elétrica, que já havia em casa. Ela ficava pendurada na parede e a fumaça que saia dela, desenhava manchas na parede como se fosse um carimbo atestando, que a modernidade ainda não tinha chegado por aquelas bandas.
O banheiro ficava fora da casa, e o chuveiro, era uma lata com furinhos na parte de baixo e minha avó esquentava no fogão de lenha, a água, colocava na lata e na hora do banho a gente puxava uma cordinha e sem cano sem nada por milagre a água saia e pronto, a gente lavava, ensaboava e enxaguava e saia limpinho que dava gosto.
Eu gostava bem mais deste ritual e por vezes até cheguei a pensar que mesmo na minha banheira de casa não era tão agradável me lavar.
Hoje sei que não era só o banho, mas era o quintal, com a horta, os pés de mandioca, as laranjeiras, os pés de mexericas, o milho plantado ,as mangueiras e as jabuticabeiras que compunham o cenário que eu queria trazer de volta para amainar a saudade que sinto do meu avó Angelo e da minha avó Maria.
Meu avó era torcedor fanático do Palestra, depois que energia elétrica chegou ele comprou um rádio.
A imagem dele com o ouvido grudado para ouvir melhor o jogo, com o som bem baixinho, não me sai da lembrança e a idéia que ele tinha de que se aumentasse o volume a conta da luz ficaria mais alta, me faz sentir como a ingenuidade daquele tempo faz falta nos dias atuais.
O que ele adorava fazer, era moer cana e nos oferecer logo depois a garapa, que era a doçura elevada a mais alta potência.
Eu hoje, responderia, que o doce mais doce do que o doce de batata doce é com certeza o olhar azul, daquele homem sábio, que no seu mundo de horizonte limitado, me ensinou coisas como a simplicidade genuína, e me fez saber como foi bom eu ter sido neta dele.

Seus ensinamentos e seus exemplos, aquecem meu coração hoje e me salva da frieza e dureza deste meu “agora” que infelizmente, nunca mais trouxe pra mim, aquelas brisas amenas.
Este cenário eu queria de volta juro, para em um milagre, eu dar a mão para aquela Detinha, que era como ele me chamava e encenar com ela, o capitulo final de ser feliz.

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