Folheando uma revista estes dias, li que existe aqui em São Paulo, um clube,  como aliás,  há em outras partes do mundo, onde se reune a geração dos 80,  para com nostalgia falar cada um das suas lembranças.

Essa turma tem em torno mais de 40 anos e sabe bem o que é saudades.

Aí meu Deus, coitada de mim. O que direi eu que sou dos anos quarenta (sim vocês entenderam, sou uma sobrevivente)

Essa turma se me conhecesse me acharia um verdadeiro dinossauro.

Eu teria que concordar, pois sou mesmo uma Matuzalém.

Ser velha tem lá suas vantagens, pois tenho muito mais estórias para lembrar do que eles.

Hoje, caminhando pelas ruas molhadas pela chuva que está caindo agora, ao passar por uma vitrine de loja de sapatos, admiro a profusão de modelos, cores e texturas, com as quais eu, no meu tempo de menina , não sonharia conhecer.

Aí toquei uma tecla, sei lá qual, talvez seja de retrocesso e me transportei para um dia, quando indo para a escola, me deparei com um ponto de ônibus, onde estava uma garota, mas antes mesmo de a reconhecer, tive o olhar dirigido para o sapato dela. Nossa, como brilhava!

Quando me aproximei para disfarçadamente examinar aquela belezura, ela me chamou pelo nome. Sem graça me aproximei mais, ela tinha notado meu interesse, sim naquele tempo,  como até hoje, disfarçar já não era meu forte.

Ela me perguntou se eu tinha gostado do sapato e me disse que ele era de verniz.

Eu nunca tinha ouvido aquele nome, só sei explicar que mesmo meu irmão, que nas horas vagas engraxava sapatos na esquina de casa, para ganhar uns trocos para comprar o gibi Tarzan, que ele adorava, por mais que se esforçasse lustrando de lá para cá,  não conseguiria esse brilho no sapato de um freguês.

Fiquei com pena de dar um pisão no sapato dela, pois naquele tempo, a criançada tinha um costume inventado sei lá por quem, de pisar no sapato novo de algum amigo, porque se acreditava que isso traria sorte para o dono.

Desconfio que essa amiga teria preferido que eu fosse dela a pior inimiga, pelo menos não teria ficado com seu lindo sapatinho todo pisado e riscado.

Eu acho até qua a amizade nossa acabou nesse dia.

Passado algum tempo depois disso, eu como toda menina de então, não via a hora de completar quinze anos.

Era apenas ao completar essa idade,  que nos seria permitido colocar nos pés,  o tão sonhado sapato com salto cinco. Era o maior desejo nosso de então.

Quando em um belo dia minha mãe colocou quinze velinhas no meu bolo e pediu que eu as  assoprasse, eu nem ouvi cantarem os parabéns, eu só me lembrei que daí em diante,  eu já poderia exercer meus direitos de mocinha.

No dia seguinte, depois  de tanta resistência do meu pai e muitos beijinhos meus,  para o convencer ele me levou até a loja Clark.

Foi lá que pela primeira vez eu coloquei nos pés,  o tão sonhado sapatinho preto com um laço em cima e lógico de verniz.

Acho que meu pai nunca entendeu porque,  com eles nos pés, eu saí da loja em uma corrida desabalada para casa.

Pronto,  com este saltinho, eu já estava apta para embarcar em um novo sonho, que seria agora o de encontrar meu príncipe encantado. Eu já não era mais criança.

Ah! ficou faltando eu matar a sua curiosidade, em compreender a razão dessa minha corrida da loja.

Sabe,  foi apenas por medo de encontrar alguma amiga pelo caminho.

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