Todo ano, nas férias escolares, lá ia eu e toda família para Mirassol. Embarcávamos na Estação da Luz em São Paulo com destino a Mirassol.

O trem tinha a a primeira e a segunda classes. Na primeira classe naquele tempo, o luxo era ter as poltronas estofadas, todas com um paninho branco no encosto da cabeça. A segunda classe era simples, todos os bancos de madeira. Nós viajávamos de segunda mas a dureza dos assentos não era nem sentida,  pois a alegria de estar indo para a casa dos avós era tanta que tudo era só festa.

Faz tanto tempo que eu quase esqueci quanto durava a viagem, a gente nem percebia o quanto era longe, pois a paisagem, o apito do trem, ficar grudado à janela em cada curva para ver lá na frente o maquinista que colocava a mão para fora acenando para todos e apitando era só magia que nos distraia e quando menos esperávamos, de repente,  lá na frente já se via a torre da igreja de Mirassol. Estávamos chegando.

Ao descer era só correr para o abraço do avó Angelo,  que nos esperava em uma charrete das muitas que se perfilavam para levar os viajantes aos seus destinos.

Já no portão a vó Maria era só sorrisos e ao entrar espevitados meu irmão e eu corríamos à mesa para nos deliciar com a guarapa e o pão fumegante mal saído do forno à lenha. Hoje sei que isto,  era o que se tenta explicar ser felicidade na mais pura essência.

Já se cantou dizendo que liberdade era uma calça azul e desbotada mas para nós crianças,  depois da fome saciada sair correndo pelas ruas tranquilas, sentindo o sol aquecer nosso coração e ir ao encontro dos amigos então, era a explosão das cores todas da alma.

Entre tantas estrepolias a gente dava um tempo e como era combinado no final da tarde, nos dirigíamos à casa da dona Helena,uma senhorinha que tinha sido professora e que agora nos seus quase noventa anos, alimentava a gurizada com seus bolinhos de chuva e contava estórias e era adorada por todos nós.

Um belo dia chegou a notícia que ela tinha morrido, meu Deus que tristeza, corremos já chorando para a casa dela.

No centro da sala estava ela dentro do caixão com flores e velas e um silencio enorme só cortado pelos soluços de todos que aprenderam a amá-la.

De repente, ela se mexeu, levantou do caixão e eu me lembro da correria e gritos geral. Nossa! Talvez nunca mais,  tive um susto tão assustador.

Antes mesmo que todos chagassem as suas casas, ouviram que,  podiam  voltar sem medo,  pois na verdade o que tinha acontecido simplesmente,  era que ela não tinha morrido.

Curiosos, fomos para lá sem entender muito bem o que havia acontecido, ao entrar ela estava sentadinha rindo junto com todos a sua volta e ouvimos algumas explicações de que ela tinha tido um  episódio de uma doença que faz que parece estar sem vida, mas que depois as funções todas voltam e pronto a vida retorna.

Sei agora um pouco mais sobre esta doença, inclusive muitas pessoas foram enterradas sem mesmo ter morrido, por isso se estipulou que os enterros teriam que ser apenas depois de um certo tempo, para que não houvesse esse perigo.

Bem mas depois de tudo voltar ao normal, a vida dela continuou e a nossa também.

Essa meninada que era meus amigos devem ter por longos anos contado essa estória aos seus filhos e netos e eu mesma a contei diversas vezes.

A admiração que tive por ela,  fez brotar em mim, a vontade de contar meus contos e assim sigo até agora, sem toda sua sabedoria, mas com a alma ainda tomada por aquele quê de encantamento que não me abandonou desde então.

Helena, Mirassol, a criança que fui, o tempo que passa tão depressa e essa saudade de mim, me deixa ser assim uma boba incorrigível que teima ainda estar por aqui.

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