Na pracinha em frente à alfaiataria do meu pai havia um parquinho de diversões.

Chamava parquinho do Canelinha.

Aos domingos ele apresenta um show dos calouros, eu como sempre muito espevitada, lá citei muitas vezes.

Por sorte dos vizinhos, minha carreira de cantora, logo se encerrou, porque o Canelinha tomado por dores de um amor não correspondido, sei lá por quem, um belo dia desarmou tudo e foi-se embora.

Aí a roda gigante, o chapéu mexicano, o balanço veneziano e o carrossel foram desmontados e eu fiquei só com meu quintal no fundo de casa, para brincar a espera de novas maneiras de exercer minha meninice travessa.Este quintal ficava ao lado de um grande terreno que era onde meu pai estendia suas fazenda(tecidos) que antes molhava para evitar que encolhessem e depois de secas as usava para confeccionar os ternos dos fregueses, que trazia  na etiqueta o nome Alfaiataria Carvalho.

De vez em quando no entanto o dono desse terreno o alugava para que um circo por lá se estabelecesse.

Aí eu nem atinava em como meu pai resolvia por não ter mais espaço que precisava para secar seus tecidos e talvez era a isso que ele se referia quando dizia : – “Ah! São os ossos do ofício”.

Quando o circo chegava eu ficava por horas vendo o descarregar das tralhas todas em inúmeras caixas,  a  montagem da lona e ficava eufórica com os elefantes, macaquinhos e cachorros que desciam dos enormes caminhões.

Esse trabalho todo já anunciava que viria muita diversão pra mim daí pra frente.

Papai, sempre bom vizinho, emprestava a luz para eles e isso me garantia entrada franca  em todos os espetáculos.

Gente, naquele tempo não havia televisão e a garotada de hoje nem pode imaginar o que isso significava e como era possível.

Mas ao invés de ver os artistas na tela da TV, víamos ao vivo na nossa frente, além deles, todos os trapezistas, palhaços e malabaristas ao vivo e eme cores.

Depois de muitos anos quando inventaram a televisão ela ainda era em preto e branco mas naquele tempo do circo o nosso espetáculo já era em tecnicolor.

Eu com minha alma de artista, até participei das peças de teatro, que eram encenadas nesses palcos como figurante, mas eu me sentia a própria Greta Garbo.

Porém como é inevitável o tempo passou e muita água rolou.

Desde  a época dos teatros gregos, das encenações dos cirquinhos das esquinas, deste tempo a que me refiro, muita coisa aconteceu e “desaconteceu”.

Mas uma saudade enorme me bate quando lembro desse tempo, em que descobrir o futuro, se resumia em caminhar da minha casa até o picadeiro e permanecer num estado de graça que só vendo, sim pois a imaginação de uma criança pode todas as coisas.

Hoje, me resta a certeza, de saber que aprendi quase tudo dos clássicos gregos e muito mais do que eu queria dos desclassificados deste nosso tempo de agora.

Caminhei pela vida desvendando segredos e os escondendo, contando mentiras sinceras e verdades inacreditáveis, pintando o sete e até o doze, mas nada mexeu mais comigo do que a singeleza daqueles espetáculos, pois foram eles que me ensinaram o sabor do “faz de conta” .

Ah! Se eu tivesse ainda meu vestido de organdi cor de rosa e a ingenuidade que só tem quem não teimou em saber demais, talvez eu pudesse ainda sentar ,como naqueles dias de outrora ,na arquibancada do circo e ficar esperando o palco se iluminar e acreditar que magicamente tudo então daqui pra frente pode ainda acontecer…

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