Meu tio Waldemar era um bon vivant.
Sempre muito alegre, adorava contar piadas e sempre era centro de atenção em qualquer rodinha.
Trabalhava como alfaiate na alfaiataria do meu pai, em São Miguel Paulista. O nome da alfaiataria era Carvalho e ficava na estrada São Paulo Rio, 654.
Meu pai tinha oito ajudantes e eram todos muito amigos e quem passasse em frente do estabelecimento o que mais ouviam era risadas, tudo por causa dos muitos casos contados pelo Waldemar.
Entre os empregados tinha um chamado Nico que era mineiro, casado com dona Therezinha e que era especialmente um medroso de carteirinha.
Para variar ele era sempre o escolhido para que meu tio o fizesse de vítima nas suas pegadinhas.
Seu Nico morava na rua do cemitério, coisa aliás da qual ele tinha o maior pavor, não tinha mudado ainda por não ter conseguido encontrar outro endereço que coubesse no seu orçamento.
Pois bem,  um belo dia todos como sempre chegaram no horário marcado para o trabalho, notaram que seu Nico não apareceu.
Meu pai achou estranho e foi até a casa dele,  que ficava exatamente na rua de trás da nossa.
Lá chegando encontrou dona Terezinha muito preocupada e seu esposo deitado na cama, quase desfalecido, branco como uma folha de papel.
Seu Carvalho perguntou o que havia acontecido e dona Terezinha explicou,  que ao abrir a porta para ir no trabalho, seu Nico deu um grito e caiu desmaiado.
Ao correr para acudir seu marido, ela o encontrou caído com uma coroa de defunto em cima do corpo.
Demorou um pouco para que ele se recobrasse, para que ela o levasse até a cama, todo tremulo ainda.
Depois de um tempo ele já estava bem e foi para a alfaiataria junto com meu pai.
Nesta hora a vítima já tinha entendido o que havia acontecido.
Entrou furioso pelo salão e partiu com tudo para onde estava meu tio, que se desmanchava de tanto rir juntamente com os colegas, pois ele já tinha contado seu último feito, que de madrugada tinha ido no cemitério e roubado uma coroa de flores de um túmulo qualquer e o colocou pendurado na porta da casa do Nico, estrategicamente de forma que ao abrir a porta, ela desabasse em cima do coitado.
Foi um corre corre danado na alfaiataria e alguns palavrões dirigidos ao malfeitor. Finalmente meu tio conseguiu correr mais que ele e partiu em disparada para a rua.
Só voltou para o trabalho horas mais tarde, esperando que a situação já estivesse mais calma.
Mas que nada, o clima ainda era tenso, ao chegar levou uns sopapos, que só pararam, quando os dois também caíram na risada e para selar a paz , se abraçaram e continuaram amigos para sempre.
Mas desse dia em diante seu Nico nunca mais chamou meu tio pelo nome e passou a chamá-lo de amigo da onça, apelido que se espalhou e fez com que,  no bairro, todos o conhecessem daí para frente,  por este codinome.

Que saudades do Amigo da Onça, hoje ele com toda certeza,  deve estar fazendo os anjos caírem na risada também…

Veja também